OS COSTUMES

C om a construção da capela e o aumento dos moradores surge também a necessidade do comércio, porque até então, quando algum morador de Cruzeiro do Monjolinho necessitava de qualquer gênero alimentício, tinha que se deslocar a pé para fazer as compras em Lagoa Formosa. Conta-se que já na metade do caminho as botinas, ainda com o couro novo, enchiam os pés de bolhas d'água, e o jeito era parar e cortar a botina no lugar que estava machucando para dar prosseguimento à caminhada, sentindo-se aliviado dos apertos da botina. Também iam a cavalo ou carro-de-boi (sobre o problema do transporte, se falará adiante). Saíam sempre de madrugada, pois para se chegar até o arraial levavam mais de três horas, já que muitas vezes, conduziam no lombo dos cavalos trelhas de sacos de mantimentos, e alguns frangos para serem vendidos lá, para que pudessem, com o dinheiro da venda, comprar gêneros de mais necessidade e que não eram encontrados na venda do Sr. José Calisto. O carro-de-boi, na maioria das vezes ia cheio de sacos de feijão, milho, café e arroz, ali ia toda a safra dos pequenos produtores, e devido ao peso obrigava a que se apertasse seu eixo, isso fazia com que ele entoasse uma cantiga, rasgando o chão, cortando poeira. Logo em seguida vieram outras casas comerciais, como, por exemplo, a farmácia do Sr. Geraldo Cândido, não havendo assim a necessidade de sair galopeando até ao arraial para comprar remédio para quem estava doente, mesmo porque o Sr. Geraldo era um conceituadíssimo farmacêutico. Sobre isso o Sr. José Cupim de Santana disse rindo:

Bom, quando o Geraldo não resolvia ele mandava para Patos. Mas um dia eu vi Chico Hortêncio falar assim: é, o doente que mandar pra Patos ou para o Dr. Ofir, pode arrumar a mala.

Diante disso, tanto o sentido de conservação quanto a mudança estão entrelaçados nas culturas populares de forma tensa. Heterogenia, fragmentada e dispersa, as culturas populares guardam, entretanto, um sentido de coletividade fortemente estruturado dentro de suas múltiplas manifestações, em seus inúmeros grupos singulares. Este sentido sempre esteve muito presente nos ritos dos grupos, práticas que mediam a existência individual, despersonificada e as entidades recuperadas na experiência coletiva, recuperadas não exatamente como sempre foram, mas sempre reelaboradas, ou seja, sempre estruturantes diante de outras práticas que as desapropriam.

Da Matta, em seu estudo clássico sobre os significados dos rituais cotidianos e extraordinários na sociedade brasileira, sintetiza bem o que pode ser o significado central da resposta das classes subalternas à pressa externa sobre suas identidades: uma resposta específica, que pode ou não estar de acordo com quem controla essa pressão. Essa resposta é que permite criar as condições de uma consciência de identidade comum, e, encapsulada no que chamamos de ritual, conjunto que dá forma e realidade a essa resposta, irá permitir a invenção de um conjunto transcendente, localizar onde a projeção do grupo poderá gerar e orientar novas determinações e estímulos. De fato, como ritual é definido por meio de uma dialética entre o quotidiano e o extraordinário, o rito estando na situação extraordinária, ele se constitui pela abertura de mundo especial para a coletividade.

Burke faz a abrangência de cultura popular hoje, referindo-se a quase tudo o que possa identificar uma sociedade, diferenciando-a de uma outra como vive, festeja, sofre, trabalha tem sido uma preocupação da história da cultura, cujos historiadores, por perceberem as diversidades entre as sociedades e a própria mudança que se processa nelas, de século a século, justificam a necessidade de entender a cultura como construída socialmente e que, portanto, requer explicação e interpretação social e histórica .

Se a cultura é um modo específico de ver, sentir e representar o mundo em que se vive, para estudar as suas formas de representações culturais é preciso, antes de mais nada, penetrar pelo interior de uma determinada realidade social, desvendar a lógica de como essas representações foram constituídas e apresentam-se ao público - o que pode estar presente nos gestos, na linguagem, nos seus referenciais de mundo, nas suas práticas cotidianas de trabalho, de lazer e religiosidade. Tal como na prática da fabricação dos caixões, quando alguém morria, em que reunia-se os homens, para fazer na própria casa do defunto, pois não havia funerária próxima ao lugarejo e somente quando surgem os automóveis é que tornou possível comprar a urna na cidade mais próxima, Patos de Minas.

E por falar em morte, os caixões fazia, quando morria, minha mãe conta, meu pai também conta que fazia o caixão na noite que o defunto morria, não era Sr. Zé? é fazia na noite que ele morria, e no quarto do defunto, era aquela dificuldade, lumiano com lamparina a noite inteira.

Nesse sentido, a história oral é, dentre outras, uma alternativa metodológica para aqueles historiadores da cultura que não podem prescindir da memória e do relato para recuperar uma época.

(…) Há verdades que são gravadas nas memórias das pessoas mais velhas e em mais nenhum lugar; eventos do passado que só eles podem explicar-nos, vistas sumidas que só eles podem lembrar. Documentos não podem responder, nem, depois de um certo ponto, eles podem ser investigados a esclarecer, em maiores detalhes, o que querem dizer, dar mais exemplos, levar em conta exceções, ou explicar discrepâncias aparentes na documentação que sobrevive. A evidência oral, por outro lado, é infindável, somente limitada pelo número de sobreviventes, pela ingenuidade das perguntas do historiador e pela sua paciência e tato.

Toda essa demonstração da cultura regional, sertaneja, ilustra bem sua forma de viver, dá-se a idéia de que no cair da tarde, por exemplo, todos se refugiavam em seus lares feito pássaros que, ao entardecer descansam calmamente nos galhos e touceiras de seu repouso e vibram em um festival de cantoria, disputando entre uns e outros um aconchego. Nesse momento, o céu que recobre o cerrado se tinge de várias cores, que aos olhos de quem o contempla, consegue definir um quadro mágico que a natureza pinta. O céu deixa de ser céu para dar convite à imaginação de quem observa, e por ser inesquecível não se contenta em vê-lo apenas uma vez, jamais será o bastante. Todo seu crepúsculo ao entardecer, a falta de luminosidade a não ser quando a lua os agraciava com todo o seu vigor, em um mero espetáculo, não era empecilho para que aqueles que procuravam diversões, que se estendiam desde o jogo de peteca entre moças e rapazes, o jogo de buraco, ou a dose de pinga no boteco, ouvindo música no rádio a pilha do Sr. Ivo Matias, que ligava o mesmo no boteco do Zé Calisto era para aqueles que ali freqüentavam, um entretenimento, até que o sono chegasse. Tinha também os animadíssimos bailes ao som da viola ou “toca-disco“, mesmo sob a claridade da lamparina com seus pavios encharcados de querosene.

É importante dizer que a cultura é um processo dinâmico, não podemos pensar as suas transformações como deterioração. é preciso ter a idéia de preservar, de valorizar. Um refazer contínuo de práticas e representações populares . é preciso que se pense a cultura no plural e no presente, como uma forma de representação viva e dinâmica das classes populares. A festa pode ter o mesmo nome, seguir ritmos tradicionais, porém a modernidade, tecnologia, mercado consumidor vão ser incorporados de alguma forma ao imaginário popular, e acaba por influenciar nas transformações e recriações das práticas culturais.

Mas sempre foi assim, sempre será O novo vem e o velho tem que parar O progresso cobriu a poeira da estrada E esse tudo que é o meu nada Hoje tenho que atacar e chorar E mesmo vendo gente e carro passando Meus olhos enxergando Uma boiada passar.