CARISMA/PODER
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SOLIDARIEDADE/AFETIVIDADE

A dominação carismática se especifica por encontrar legitimidade no fato de que a obediência dos dominados é uma obediência ao carisma e ao seu portador. E lideranças carismáticas era o que não faltava nos primórdios de Monjolinho. Ressaltando que carisma é a qualidade extraordinária de uma personalidade considerada sobrenatural, sobre humana ou mágica. Há obediência ao líder enquanto portador de carisma. A administração se dá em qualquer quadro racional, sem regras fixas, hierarquias ou competências. Simplesmente o chefe carismático cria ou anuncia novos mandamentos, direitos, normas, punições, etc. pela revelação ou por sua vontade de organização. Sem o dom especial para liderar, o carisma a capacidade de despertara admiração e obediência, o poder coronelista não poderia ser exercido. Esta visão pode ser encontrada em Faoro:

O Coronel, antes de ser um líder político é um líder econômico, não necessariamente, como se diz sempre, o fazendeiro que manda nos seus agregados empregados ou dependentes (…) se a riqueza é substancial à construção da pirâmide, não é fator necessário, o que significa que pode haver coronéis remediados, não senhores de terras(…) ocorre que o coronel não manda porque tem riquezas, mas manda porque se lhe reconhece esse poder, num pacto não escrito.

Segundo Faoro, a “investidura coronelesca“ é sempre feita pelo governador do Estado, ou pelo grupo que o controla. Em âmbito Municipal, o coronel era a liderança econômica, a proteção dos camponeses e dependentes, o elo de ligação com o mundo “exterior“. Assim, o poder do coronel, provem da riqueza, mas não apenas dela, ele legitima-se no seu reconhecimento social e na investidura pelo Estado.

E em Monjolinho, num primeiro momento, haviam terras sem donos, matas fechadas que logo foram sendo apossadas e, imediatamente desmatadas para o cultivo da terra com plantio de milho, feijão, arroz e também pastagens. São todos micro-produtores, onde os braços da família normalmente davam conta de toda a atividade que ali se desenvia. Encravados praticamente no meio deste universo micro-produtor, a casa do tipo colonial abrigava a família. Mas havia também algumas grandes propriedades, cujos donos exerciam seu poder de mando e influência junto às autoridades. Outra discussão referente ao coronelismo é a tese de Souza:

O autor citado vê o coronelismo como resultante de um conjunto de elementos, embora dê ênfase ao papel da política assistencialista-paternista.

Uma classificação que dá conta do tipo de coronelismo existente na região é a do tipo de grande proprietário da terra e do comerciante. O fazendeiro e o comerciante que faziam parte das siglas partidárias que em suas práticas, estariam mais acentuados elementos tais como: fraude, pouca facilidade com relação a oratória e com relação unilateral. As principais lideranças eram UDN e PSD. Mas o que determinava a composição do poder, e o que decidia as eleições era a força do carisma do líder, personagem político que era indispensável à elucidação das relações políticas no período.

Para weber o estado carismático e suas manifestações resultam de uma extraordinária excitação emocional que, em dado momento, vem a caracterizar um grupo de homens transportados através dele de fora das rotinas do cotidiano para um estado insubstituível de exaltação heróica. Com a chegada da cultura nipônica, passa a haver uma relação íntima (contrária à dos coronéis em relação aos trabalhadores) que, com espírito reservado e empreendedor, que chega em Monjolinho movido por interesses econômicos. Não se tratava da prática capitalista em si, mas do “espírito do capitalismo“ .

Pode ser encontrado nos japoneses que atracaram em Monjolinho, o mesmo espírito matemático e frio que se adapta, maravilhosamente à cultura política e mercantil dos protestantes . Em Monjolinho, o Sr. Fukuda iniciou seus negócios à partir de uma pequena propriedade, quando deixou o Estado onde nasceu (PR) e veio a passeio a Lagoa Formosa. Aqui encontrou um pedaço de terra coberto por mato e capim, logo à primeira vista interessou-se pelo terreno, vindo a comprá-lo do Sr. José Magalhães por mil mil dólares, isso no ano de 1984.

Em entrevista realizada com a Srª Célia Fukuda, esta relata que a escolha da Fazenda Baú (Próxima a Monjolinho) para a prática de lavoura cafeeira foi obra do acaso. Pronunciamento que deixou no ar a dúvida sobre se a escolha foi feita mediante pesquisa ou não. Principalmente pelo fato de que naquela região, na maioria dos quintais havia a existência de pequenos cultivos variados para consumo próprio, mostrando assim o quanto a região é promissora. A Srª Fukuda, disse que:

A Fazenda Baú tem esse nome pode ser até por acaso, mas que sua terra fértil, foi como que se tivesse encontrado um verdadeiro Baú.

Para a família Fukuda, o nome da fazenda continuará a ser o original. Hoje a fazenda chega a ter mais de 300 ha de terra. Sendo que teve início em 1990. A meta de Fukuda é alcançar cada vez mais terras no solo mineiro, que para ele é a agricultura do futuro devido ao excelente clima.

Antes de ser agricultor o Sr. Fukuda era chefe de uma multinacional, mas sonhava em um dia a ter seu próprio negocio. Descendente de japonês, possui sangue oriental puro. Para ele há diferença entre a cultura brasileira e a cultura japonesa:

O que diferencia um japonês de um Brasileiro é a cultura, a maneira de trabalhar e de vencer.

Técnico em telecomunicações e administração de empresas, seu primeiro estágio foi no Japão, em automação de Equipamentos pesados, durante dois anos; e seu segundo estágio em Robotização para a montagem de peças; também no Japão. Fala inglês, português e japonês fluentemente. Possui residências no PR, SP e aqui em Patos de Minas e também no Japão. Quando deixou São Paulo tinha em mente ficar rico, mas para ele hoje:

Não existe nem rico e nem pobre. Quanto mais bens as pessoas possuem mais dor de cabeça tem.

Como já foi dito anteriormente,

Weber reservava o carisma para os indivíduos portadores de dons específicos do corpo e do espírito, estimados como sobrenaturais (e não acessíveis a todos) . Além da Fazenda Baú ele possue mais duas fazendas: A Fazenda Califórnia e a Fazenda São João, ambas em Minas Gerais. E toda produção de café do Sr. Fukuda, 99% de sua produção, é exportado para a Europa, devido a sua qualidade. Lembrando que a cada safra, é enviada amostra do produto para a Itália onde concorre com vários produtores, o prêmio de melhor qualidade. Mas como há grupos italianos produtores de café, principalmente na região de Araguari, sempre quem recebe o prêmio de melhor qualidade são os italianos: Há um certo protecionismo .

A produção do café, principalmente em épocas de colheita, traz muitos benefícios, como, por exemplo, o emprego de mão-de-obra que é muito utilizada nos processos tradicionais de colheitas, a deriça - arrancamento com as mãos dos grãos presos a cada galho, também a catação que é a colheita manual, grão a grão, que adiante a colheita mecânica com resultados bastante satisfatórios para o produtor e que vem roubar o lugar do bóia-fria. Sem qualificação, tal profissional se vê obrigado a deixar seu lugar, sua terra e ir em busca de melhores condições de vida. Monjolinho de Minas, com a chegada da colheita mecânica, vê seus filhos, principalmente os mais jovens, irem para Uberlândia e/ou São Paulo, em busca de emprego. Pois a fazenda do Sr. Fukuda consegue empregar poucas pessoas com emprego fixo, sendo que temporários, apenas em épocas de plantio, desbrotamento, capina e colheita.

Contudo a cafeicultura em Monjolinho trouxe muitos benefícios, mas também, conseqüentemente alguns problemas que devem ser colocados em discussão. Um deles foi o desaparecimento da mata nativa, que havia num lugar da região cafeeira, que com a abertura de áreas do plantio, procedeu-se ao arrancamento da mesma. Foram utilizados produtos químicos para que as deficiências do solo fossem corrigidas, bem como no combate às pragas. Como se sabe, para que haja lucro e rentabilidade, é necessário aperfeiçoar técnicas e mecanização. E sem falar na praga que acarreta, muitas vezes a perda dos cafezais. Nesse período há o uso de agrotóxicos, que nem sempre dispõe de lugares propícios que sirvam de deposito para os mesmos. E mesmo após seu uso não há um local de reciclagem destes vasilhames.

O vento e a chuva levam os resíduos de agrotóxicos que, por sua vez, vão parar no pasto. Onde o gado se alimenta e, outras vezes, levados pela enxurrada encontram lugar nas nascentes. Este é o preço para se chegar ao lucro, à modernização, ao progresso. Mas este não devem sobrepujar o ser, até porque a palavra “progresso“ significa movimento para frente, e o ser humano, aquele que levanta cedo, ainda escuro, deixa crianças pequenas em casa, em busca do sustento da família, acaba não tendo acesso justo aos fruto do seu trabalho.

Percebe-se uma certa desinformação. Na sua simplicidade, o homem da terra não consegue ver a dimensão em que os avanços tecnológicos estão substituindo-o e que um dia, não muito distante, estará sendo obrigado a mudar com sua família, pois faz parte de uma mão-de-obra não especializada, tendo que enfrentar dificuldades maiores do que em épocas em que não há a panha do café. Pois, mesmo não sendo colheita, encontram serviços no desbrotamento, capina, enquanto aguardam ansiosos o período da safra.

Conforme Antônio Cândido, o ano agrícola é a grande e decisiva unidade de tempo (…). As contas se fecham ao cabo dele (…) os trinta dias nada significam. O ritmo de sua vida é determinado pelo dia, que delimita a alternativa de esforço a repor; pela semana medida pela “Revolução da lua“, que suspende a faina por vinte e quatro horas. Regula a ocorrência das festas e o contato com as povoações. Pelo ano que contém a evolução das sementes e das plantas. A atividade do bóia-fria favorecia a simbiose estreita com a natureza, funde-o no ciclo agrícola, submetendo-o à resposta, que a terra dará ao seu trabalho, que é o pensamento de todas as horas .

O despertar do homem do campo, geralmente acontece antes do sol nascer, servindo de sinal o mugido do gado, o canto do galo. A mulher acorda antes que toda a casa, prepara o café que se bem sortido, em época de “eito pesado“, pode vir servido com ovo frito sobre um prato de farinha molhado de gordura, e em dias de serviço mais leve alguma quitanda. O cardápio do almoço é, quase sempre, composto de arroz, feijão, um molho de verdura, farinha, ovo ou um pedaço de carne. Na verdade é o jantar que é feito, colocado na marmita e guardado para ser ingerido no almoço do dia seguinte. No qual o bóia-fria leva um pouco de álcool e um fogareiro feito de lata de conservas, que despejado o álcool, ascende o fogo e é esquentado o almoço.

(…) o armoço, nóis nem esquenta ele direito, pois quanto mais tempo nóis perder, menos nóis vai receber(…).

Não é somente de homens que é composto o grupo de bóias-frias, da chácara do Sr. Tomio Fukuda. As mulheres também deixam seus afazeres nesta época, para ajudar o marido e os filhos, para poder aumentar o orçamento da família. Os filhos deixam até mesmo de freqüentar a escola nesta época, para poder cuidar dos irmãos menores e para cuidar do quintal e da casa enquanto os pais estão para a colheita.