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os primórdios de Cruzeiro de Monjolinho, não existia uma área de lazer especifica, mas isso não quer dizer que não existia diversão. Haviam as festas religiosas,
as novenas, com celebrações do terço e, logo após o terço, animadíssimo baile com músicas ao som da viola, da sanfona, ou um toca disco, que animava os pares nos salões das casas onde estava sendo realizada a novena, a dançar até amanhecer. Também haviam os passeios aos domingos ou dias santos na casa dos parentes e amigos. Ou mesmo à noite quando a lua estava clara, passeavam na fazenda do vizinho, onde ficavam contando causos, piadas, conversas do cotidiano.
Em Cruzeiro do Monjolinho, tinha também o buteco do Sr. Zé Calisto, em que os moradores todas as noites ficavam a jogar conversa fora e ouvir música até altas horas, onde o pavio da lamparina ia encurtando pelo jogo e ficando uma claridade um tanto que melancólica.
A famosa rua da oropa também era animadíssima, ali acontecia de tudo um pouco: brigas por excesso de bebidas, crianças que brincavam aleatoriamente na rua, e que de uma simples brincadeira deixavam as mães de mal umas das outras devido as brigas entre os filhos. Também tinha a bica d'água que abastecia todas as casas da rua, com as donas de casa com baldes ou latas cheias de água apoiadas sobre a cabeça cantando ou conversando com as vizinhas que aproveitavam a companhia para também apanhar água. Havia também naquela rua prostituição, ainda que ali não tivesse uma casa noturna. Fato este que fazia com que as famílias conservadoras buscassem armas na batalha moral contra os maus costumes. As esposas, que procuravam de todas as maneiras tirar seus maridos e filhos daquele universo de viver diferente, que por outro lado, não se encontrava descolado das obrigações sociais, do mundo do trabalho e do universo familiar, uma vez que ser boêmio poderia significar viver diferente, estabelecer regras de modo distinto, ter uma vida que escapasse à monotonia e ao previsível, contudo respeitando certos códigos e condutas estabelecidas nesse universo .
Época em que se dançava juntinho, onde homens e mulheres tinham a oportunidade de se conhecer e sentir de perto o calor e o cheiro um do outro , ao mesmo tempo, estes mesmo homens, saciavam seus desejos carnais e sexuais com a mulher prostituta tida como pública e privada, para todos e para ninguém e símbologicamente, era mundana e ao mesmo tempo uma sacerdotisa, pois cabia a ela a iniciação de um jovem ou a transformação de um pequeno quarto em confessionário, onde os mais diversos sentimentos eram expressos não só na linguagem dos corpos, mas também no movimento do olhar.
Assim, o retrato da mulher pública é construída em oposição ao lado da mulher honesta, casada e boa mãe, laboriosa, fiel e dessexualizada. A prostituta construída pelo discurso médico simboliza a negação dos valores dominantes, pária da sociedade que ameaça subverter a boa ordem do mundo masculino. Seu objetivo principal é a satisfação do prazer e nesta lógica prazer e trabalho são categorias antinômicas .
Recorria-se a ela, como ao padre ou ao analista, para ser ouvido, compreendido. Mas igualmente para ser amado. Ela, mediante tal força, tinha o poder de construção e destruição daqueles que sabem e conhecem a fragilidade humana. Daí a interpretação ambígua dessas mulheres, sendo confundidas com mulheres puras, feiticeiras, amigas e amantes. Por isso eram elas idolatradas, ou pisadas na sua fortaleza e na sua fragilidade. Fortaleza por deterem um poder indizível e descomunal, frágeis por serem mulheres públicas a serviço de interesses particulares.
Assim era a rua da oropa, idolatrada ou pisada. Localizada lá no fundinho, na parte baixa do lugarejo, não só na localização, mas também pela desorganização por parte de seus moradores. Hoje ela só existe na memória daqueles que viveram a sua época e que se trancam no silêncio, com o medo de que as gavetas perfumadas do passado sejam visitadas.