Localizado na região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, a 20 Km de Lagoa Formosa, ao norte da Comunidade de Abelha, ao Sul da Comunidade de Baú, a Oeste de
Taperão e a Leste de Cabeceira do Monjolinho, o distrito pode parecer insignificante, uma vez que não consta no mapa do Estado, podendo ser visto apenas no mapa do município. Seu solo, de cerrado, vegetação em sua maioria rasteiro, mas também possuindo copas majestosas. Planície com suaves ondulações, um tapete verde com sucessões irregulares de outros tantos tipos de árvores, dos mais diferentes tamanhos e formatos. Sua terra fértil permite seu povo cultivar os mais diversos produtos agrícolas num mesmo pedaço de chão: milho, arroz, feijão, mandioca e o café; que se estende de alguns pés no fundo do quintal para o próprio consumo, até grandes plantações.
A comercialização do café, não mais se tratando de alguns poucos pés e sim de milhares e milhares que também tomam conta das paisagens, fez a economia do lugarejo ser reconhecida pelo mais famoso produto deste país, pela qualidade dos seus grãos. Sabendo-se que, da qualidade e quantidade da safra, vem o sustento do trabalhador, saciando a fome daqueles que irrompem nas lavouras em época de colheita, sacolejando nos ônibus sem segurança, almoçando a marmita fria. Monjolinho de Minas, seu povo sua cultura, suas histórias, ao que se sabe ainda não foram objetos de estudos. Nesse sentido, não se tomou contanto com fontes escritas, por exemplo, que talvez pudessem direcionar a pesquisa. Mas, por outro lado, a memória de seus antigos moradores, sua fala enquanto reelaboração foi sendo o veículo mais pertinente para se recuperar a História desta localidade. Salientando que o historiador, cujos olhos são treinados para observar criticamente o passado, não está livre de voltar-se para o ontem premido pelo hoje. São, sem dúvida, as inquietações do presente que o levam o historiador a olhar o passado com recortes temporais e enfoques diferenciados. Não menos importante é o envolvimento do mesmo nos acontecimentos do presente. O historiador não pode e não deve eximir-se da necessidade de enfrentar a história a partir do lugar que ocupa na sociedade, tanto claro, portanto, que o mesmo mantendo uma dada distância analítica de seu objeto, não poderia jamais produzir um discurso neutro sobre ele. Pretende-se aqui recuperar a história de Monjolinho através, sobretudo, da memória das histórias e causos, costumes e hábitos contados pelos seus moradores. Mesmo porque no interior de Minas Gerais é difícil encontrar alguém de Monjolinho que no decorrer de uma prosa não conte um causo . O uso de fontes orais para a composição do discurso histórico não é, em absoluto, uma prática nova no interior da disciplina da história e muito menos uma prática aceita sem reservas e críticas. A História oral, nesse sentido, pode ser utilizada tanto para transformar quanto para conservar determinados aspectos, sejam eles sociais, políticos, culturais. Segundo Thompson, ela abre a perspectiva desafiadora de explicar o modo com que a força e o conflito desempenharam e continuam desempenhando na evolução do sistema político e social. E justamente por isso, pode ser utilizada como um instrumento transformador na história.
( ) a história oral pode certamente ser meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da história. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação: pode derrubar barreiras que existiam entre gerações e instituições educacionais e o mundo exterior, e na produção da história - seja em livros, músicas, rádio ou cinema - pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras.
A memória também pode funcionar como um elemento ruptor, uma vez que fazendo aflorar aspectos até de rompimento com as origens, até então reconhecidas como tais, a memória manifesta, assim, um caráter de inovação e não apenas de preservação .
Por ser palavra, registrada tecnicamente através de um gravador, sujeito a transformações posteriores em casos de novos registros, por ser manifestação concreta da memória, com juízos de valor, confusões, esquecimentos, silêncios, etc, sendo o produtor da interelação do pesquisador e do entrevistado, as fontes orais têm recebido como principal crítica a sua subjetividade.
A subjetividade inerente à fonte oral é uma constatação; é um fato. E negá-lo não resolve o problema. O documento oral tem nascimento datado e, portanto, a memória também: Nascida no presente , voltada para o passado e projetada para o futuro, a memória apreendida através da fita magnética permite a percepção destes três tempos. O presente no qual as memórias se voltam para o futuro, para o qual as memórias trabalham. E para isto, as memórias, pela insistência de não deixar morrer a identidade de um pequeno povoado. Neste caso, existem sempre aqueles mais jeitosos, que sabem dar graça e comicidade no relatar um fato ocorrido. Geralmente são os apontados pelo grupo para encenar determinado caso. A veracidade e a entonação da história garantem o sucesso e a permanência do causo, no repertório popular.
Logo nas primeiras incursões, na tentativa de conhecer o município de Monjolinho de Minas, uma família, pelo menos, aparece como a grande precursora da cidade. Uma das primeiras a, logicamente, habitar a região. Assim, tornou-se impossível não se buscar conhecê-la um pouco mais.
Trata-se do Sr: João José Soares e de seu irmão, José Soares, que vieram de Bom Despacho no século XIX e armaram barracas na beira do Córrego do Babilônia, no município de Lagoa Formosa. Depois de algum tempo, o Sr. José Soares adquire um pedaço de terra na Fazenda Mata-Burro, próximo a Monjolinho. E seu irmão, o Sr. João José Soares, chega na fazenda Abelha, aproximadamente em 1840. Os irmãos Soares passaram a ser chamados de irmãos Babilônia, devido a estadia na Beira do Córrego do Babilônia. Quando da chegada do Sr. João José Babilônia por essas bandas, era um homem solteiro, mas logo casa-se com Coleta do Espírito Santo.Da união nasceram cinco filhos, sendo eles: Cirilo José Soares, Joaquim José Soares, Pedro José Soares, Graciano José Soares, e o único com sobrenome apelidado foi o filho caçula, o Sr. José Babilônia, que nasceu no dia 24 de outubro de 1889.
Outro precursor de Monjolinho, por coincidência, também nasceu na beira do Córrego Babilônia. Trata-se do Sr. José Cupim de Santana, nascido no dia 27 de julho de 1916. Filho do Fazendeiro Antônio Machado de Santana e Maria José da Silva Braga, após seus nascimento mudaram para a Fazenda Tamboril próximo a Monjolinho.
Todos os filhos do Sr. João Babilônia, continuaram morando na Fazenda Abelha, sendo que na moradia do mesmo, segundo seu filho, Lindolfo Babilônia e segundo o Sr. José Cupim, ali mesmo eram realizadas cerimônias religiosas desde a primeira eucaristia até batizados e casamentos. Tudo acontecia na Casa Grande da Fazenda Abelha, a qual José Babilônia cedia gentilmente para a comunidade, sendo que não existia ali uma capela onde pudessem se realizar tais eventos.
Vale dizer, que desde o nascimento da História, com Heródoto, a observação participante prescrita por este, era acompanhada pela utilização dos testemunhos daqueles que vivenciaram os acontecimentos. Contudo a busca da veracidade dos fatos, levou Tucídedes, mas tarde, a questionar a incorporação pura dos relatos, tendo em vista as suas dessemelhanças e juízos de valor, não obstante referirem-se aos mesmos episódios. As memórias dos indivíduos, tal qual os próprios indivíduos, não são idênticas, terminando por produzir variações que, por sua vez, levariam à produção não de um, mas de vários acontecimentos.
O empenho em apurar os fatos se constitui numa tarefa laboriosa, pois as testemunhas oculares de vários eventos nem sempre faziam os mesmos relatos a respeito das mesmas coisas, mas variavam de acordo com suas simpatias por um lado ou pelo outro, ou de acordo com sua memória.
Os documentos orais, chave-mestra para uma aproximação da memória são, acima de tudo, reeleituras do passado relacionadas com experiências posteriores e, sobretudo, experiências presentes. Portanto não isentas de conter em si significados, sentidos ou imagens, ou opondo-lhes frontalmente ou reelaborando, desenvolvendo, por fim, um conteúdo diferenciado. Nesta senda não se pode ainda julgar antecipadamente a chamada memória oficial como imune a idêntico processo de circularidade . É uma questão que não presta o por, de maneira simplista e ingênua a memória dos vencidos e a memória dos vencedores, cabendo ao historiador retirar às brumas a memória subterrânea dos moradores do antigo Cruzeiro do Monjolinho.
Voltando ao lugarejo, sabe-se que a partir de maio de 1948, este passaria a se chamar: Cruzeiro do Monjolinho. Acontece que em 1º de março de 1963, Lagoa Formosa emancipou-se e, neste sentido, Cruzeiro do Monjolinho passou a pertencer a este município , como distrito, (a partir de 06 de maio de 1964) deixando de ser chamado de Cruzeiro de Monjolinho, para se batizar definitivamente Monjolinho de Minas.
é importante salientar a origem do nome Cruzeiro do Monjolinho. Cruzeiro devido à cruz que fora fincada ali no dia 20 de maio de 1948 e Monjolinho devido a existência de vários monjolos que existiam ao redor do lugarejo. Isto se explica: com a chegada de cada família na região, estas apossavam de um pedaço de terra e para comprovar que aquele terreno já tinha dono, era construído e instalado ali um monjolo, o qual, batendo dentro do pilão com pau, fazia com que se escutasse seu barulho de longe, indicativo de que ali já tinha dono. Além de ser um marco de posse, o monjolo era um instrumento de trabalho, utilizado para socar os grãos de café, para retirar as suas cascas, para que pudesse ser torrado, servindo também para limpar o arroz e socar o milho para a fabricação da farinha.
Cruzeiro do Monjolinho começa a se desenvolver lentamente. No ano de 1948, surge o Sr. Mário José da Silva (Marico), pedreiro que veio para dar início à construção da capela, e, em seguida outros moradores. E Marico, juntamente com os demais, apostaram no crescimento do lugarejo, tendo sucesso em seus pensamentos. Hoje existem dezenas de moradores e a tendência ao que tudo indica, é só crescer ainda mais.
Como todo início é cheio de dificuldades, com Cruzeiro do Monjolinho não foi diferente. Se água é sinônimo de vida, apesar das torrentas bicas d'água que jorravam nas suas proximidades, esta não era encanada. Sempre que se precisava, tinham que buscá-la na bica, seja para cozer os alimentos, tomar banho, etc, isto quando o carneiro não quebrava alguma peça. Alguns possuíam cisterna, e como a água não dava para suprir todas as necessidades (principalmente para lavar roupa), as pessoas tinham que se deslocar de suas casas e ir até a casa do Sr. Zacarias José de Santana, morador próximo a Cruzeiro de Monjolinho, em cujo terreno se encontrava uma bica d'água.
O caminho que levava até sua casa, era um verdadeiro vai-e-vem das donas de casa, apressadas com latas d'água apoiadas na cabeça, para o preparo do almoço ou banho do filho que deveria ir à escola ou dos demais que estavam trabalhando na roça. Só a partir de 1970 é que se resolve o problema da distribuição da água, foi o momento da inauguração da nova caixa d'água e canalização da mesma, garantindo o líquido todos os dias nas torneiras e substituindo o velho carneiro pelo motor movido a óleo. Mas o motor também dava problemas, com defeitos semelhantes aos do carneiro, tirando o sossego das donas de casa, que continuavam sendo obrigadas a buscar água e lavar as roupas na casa do Sr. Zacarias.Ou mesmo os romeiros, que também usavam a bica para lavar os pés no dia da festa do Padroeiro São Sebastião vinham das fazendas com os pés descalços, carregando os sapatos nas mãos, e para retirar toda a sujeira dos pés tinham que ir até a casa dele para depois participar dos festejos. Não era somente a nascente do Sr. Zacarias que socorria os moradores, o carneiro, por exemplo, era bombeado pela nascente do Sr. Eduardo Braga, e também havia a biquinha da Rua da Oropa, que não só abastecia os potes dos moradores dali, mas a quem dela precisava .
A década de 70 foi uma década marcante para o lugarejo. Em 13 de maio de 1976, inaugurava-se a energia elétrica, tomando o lugar das lamparinas e lampiões. E para que a praça ficasse mais bonita, em 1978 houve o plantio de muitas espécies de árvores e também a colocação de bancos, fazendo dela um lugar mais acolhedor e aconchegante. Hoje ela está toda modificada, quase todas as árvores e bancos foram arrancados, não por vandalismo mas por interesses políticos. Mas nem por isso ela deixou de ser movimentada, nela é que se encontra o ponto de ônibus e o coreto, local onde são leiloadas as prendas da festa do padroeiro. As vendas ou armazéns onde se encontra de tudo um pouco em secos e molhados, produtos veterinários e produtos úteis à dona-de-casa. Também o salão, onde são realizados os bailes é próximo à praça, pois se o baile não está bom os jovens ficam por ali com seus carros estacionados, ouvindo músicas e dançando.
É importante ressaltar quanto as questões políticas, que haviam duas siglas partidárias, o PSB e o UND que apesar das rivalidades trouxeram grandes benefícios para a comunidade de Monjolinho, dentre os quais é possível destacar, quando as lideranças do PSD, através do vereador José Babilônia e outros líderes como Nania Cupim, João Cupim e demais conseguiram verbas para a construção da caixa d'água. Quando da inauguração da energia elétrica, o vereador Alzino Davi de Paula também teve sua participação em tal conquista, isto no ano de 1976. O jovem Maurício José Fernandes foi o vereador mais votado do município, pelo PMDB e nesta legislatura Monjolinho ganhou o posto telefônico, inaugurado em 15 de agosto de 1987, juntamente com a receptora de TV. Era a modernidade chegando, a antena parabólica e TV em preto em branco do Sr. Carlos Fonseca, o qual foi o primeiro a possuir o aparelho, agora trocada por uma imagem colorida.Várias famílias também puderam adqüirir o seu televisor, substituindo as conversas corriqueiras ao fim da tarde, que agora foram tomadas pelo encanto das novelas, dos telejornais, e pelo jogo de futebol do time do coração.
Dando continuidade à série de inaugurações, em 1977 foi a vez do posto de saúde, e em agosto 1988 o asfalto chega nas duas principais ruas do Distrito, juntamente com a rede de esgoto, apesar das promessas dos candidatos à prefeitura, de asfaltar todas as ruas nas quais crescia o mato, que insistia em resistir às investidas das enxadas. Isto até o ano de 1992, quando ocorre a pavimentação do restante das ruas, tomando o lugar dos buracos, mato e poeira. Em 30 de novembro de 2000 a população passou a receber água tratada. Em 15 de agosto de 2001 inaugurou o posto de serviço do BANCOOB, facilitando assim a vida bancária do produtor rural.
Vale dizer que o progresso até hoje foi mínimo. Monjolinho poderia não ser um simples distrito e sim um município, pelo que foi publicado e, em 18 de janeiro de 1995 pelo governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, no diário do executivo.
Lei Complementar nº 37, de 18 de janeiro de 1995. Dispõe sobre a criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de municípios e dá outras providências.
Lindolfo Babilônia foi o mentor desta tentativa de municipalização, segundo ele o distrito preenchia todos os requisitos exigidos por lei. Porém houve barreiras políticas.
É foi uma falta de apoio político e desinteresse político do nosso município né, Lagoa Formosa, a gente vamos respeitar a posição deles também, que certamente tem um pensamento é diferente da gente e evitar ( ).
Clovis Cupim, também fazia parte do projeto de emancipação na época ele era vereador no município de Lagoa Formosa, representante do povo monjoliense na Câmara Municipal pelo do PMDB.
Sim, eu tive o privilégio, né eu atuava aqui, né, tentando de todas as meniras para ver se emancipava aqui Monjolinho de Minas, nóis gastava trêis mil eleitores, então acho que para nóis seria uma boa. No pensamento da época, hoje analisando a dificuldade que está passando a cidade né, tentamos de todas as maneiras, mais não atinge, o número de gente ideal que precisava para municipar né, mas os papéis que nóis conseguimos não foi suficiente.
D. Aida Tavares Braga, moradora de Monjolinho, professora leiga, hoje aposentada, também tinha conhecimento do projeto de municipalização, mas não participou diretamente do mesmo.
( ) mais, que foi até autorizado pelo prefeito da época, Ocarlindo Machado (Lagoa Formosa, né) mais como Monjolinho, como sempre até hoje um lugar onde a política tem uma divergência muito grande, então houve ( ) é, alguém da comunidade eu não sei... que foi contra o projeto e lutou até que ele foi derrubado, foi uma perca muito grande.
Pode perceber através das falas dos entrevistados, enquanto processo de emancipação do Distrito de Monjolinho, um envolvimento político, com interesses próprios. O que todos moradores sabem, é que Monjolinho já foi bastante beneficiado com seus representantes políticos, mas as desavenças políticas já o fizeram perder.