Cruzeiro do Monjolinho, Lagoa Formosa, Minas Gerais, Brazil.

A Capela

C omo já se disse anteriomente, todas as cerimônias religiosas antes da construção da capela eram realizadas na residência do Sr. José Babilônia, na fazenda Abelha. Com o passar do tempo e com o número de moradores aumentando gradativamente, a comunidade se reúne e coloca em prática a construção da mesma, sendo o idealizador o Sr. José Babilônia, que compra o terreno para a comunidade. Seguindo informações encontradas no registro de imóveis de Patos de Minas, foi encontrada a escritura de compra e venda do terreno.

 

Certifica-se pedido da parte interessada, que revendo em cartório, os livros de transcrições das transmissões, deles verificou constar. Uma sorte de terra, em comum, com a área de 02.37,65ha de cultura, confrontando com Francisco Magalhães, Zacarias Machado de Santana, Joaquim Moreira Marques e transmitentes, Francisco Pereira da Silva e sua mulher, Zacarias Prudêncio de Magalhães, José Prudêncio de Magalhães, ambos solteiros e lavradores, venderam em partes iguais e também valores iguais.
Carros de boi na praca Sao Sebastiao

A escritura do terreno só foi lavrada em 26/11/51. Mas a cruz foi fincada no dia 20 de maio de 1948, como símbolo de fé. O Cruzeiro foi feito de madeira extraída da Fazenda de D. Seluta Maciel, na Serra da Boa Vista. Tal madeira foi conduzida de carro-de-boi até a fazenda do Sr. José Babilônia, sendo que seu filho, Lindolfo Babilônia, traz na memória os nomes dados aos bois de seu pai, que conduziram a madeira: Chatinho e Carinho.

A cruz foi feita na fazenda do Sr. José Babilônia por dois carpinteiros da comunidade, o Sr. José Pinheiro e seu irmão Joaquim Pinheiro que não só ajudaram na construção da mesma, mas também ajudaram a fincá-la, dando suas participações ativas em prol da construção da sede da comunidade. No mês de agosto de 1948, foi realizada a primeira missa, junto ao pé da cruz, pelo Padre Firmino, sendo este o primeiro passo para a campanha da construção da capela. Formaram uma comissão para fazer a campanha de arrecadação, fazendo parte desta: José Babilônia, João Cupim, Ananias Cupim, Duca Cupim, Vigilato Mota, Zacarias Cupim, Joaquim Pinheiro, José Pinheiro e outros.

A partir daí teve início a construção da capela pelo pedreiro Marico Jacinto, que inclusive foi um dos primeiros moradores do lugarejo, juntamente com outras famílias como a de Pedro Tavares, Alberico Meira, José Calisto, Brás Basílio.

Com o passar do tempo, a capela foi ficando pequena necessitavam de um espaço mais amplo que comportasse a população , sendo que em dia de celebração a igrejinha não comportava todos, principalmente em dia de festa do padroeiro, sugerido pelo Sr. José Cupim de Santana, que fosse São Sebastião. Desde então a cada festividade alusiva ao Santo, os fiéis vinham de todas as comunidades, não somente no dia da festa, mas vinham dias antes para participar das novenas, trazendo toda a família de Carro-de-boi, e ainda mantimentos, colchões e quitandas, para que não passassem necessidades durante os festejos. Alojavam-se ali na praça mesmo, pois não havia lugar para todos. Mas nada disso tirava o ânimo daquela gente, muito pelo contrário, participavam das celebrações com fé e devoção ao mártir São Sebastião, que protegia a todos da fome e peste em seus rebanhos, sendo que a maioria dos romeiros vinham das fazendas vizinhas, em busca de bênção justamente para seus rebanhos e familiares.

Em Cruzeiro do Monjolinho, os antigos moradores não perceberam que o homem, por onde passa, deixa as marcas de sua existência sobre a terra através do seu modo de pensar, agir, se organizar; que o homem fala uma língua própria, tem uma família, possui crenças e costumes, isto é, tem uma Identidade Cultural. E tudo que possui ou que faz parte de sua vida é o seu patrimônio, é um bem que deve ser, por isso mesmo, preservado. Por isso mesmo não souberam preservar a antiga igrejinha, não tiveram idéia do seu patrimônio cultural enquanto através da sua história e que marcam a identidade de seu povo. Não tiveram idéia da importância da preservação da sua cultura, no sentido de manter sua identidade, lembrando sempre de onde vieram, e com ela poder crescer e evoluir, respeitando seu passado e sua cultura. Destruindo o velho, queriam apenas dar lugar ao novo. Depois de iniciarem as obras da construção da nova igreja, em 1964, acharam que à antiga não poderia mais contribuir para aquele povoado. Não era somente uma questão de espaço físico, muito mais sério que isso era dar à antiga capela o valor cultural que merecia.

Para a construção da nova capela, dentro das festividades de São Sebastião haviam apresentações circenses, com engraçadíssimos palhaços, tourada, música, uma forma de divertir a população e também angariar fundos para terminar a igreja que em 1978 já estava construída. Em junho do mesmo ano foi colocado um relógio em sua torre vindo diretamente de Jaboticabal - SP, para que se pudesse dar um novo acabamento à mesma, e que também pudesse deixar todos bem informados quanto aos horários e espaços de tempo. Sendo que de quinze em quinze minutos ele bate, informando que o tempo passa breve e alegre para uns, longo e inexpressivo para outros. Cora Coralina assim o descreve em seus versos:

Relógio novo, logo mais você marcará também, a chegada de alguém que se espera com o enlevo dos pais e ternura da avó. O dedinho da criança um dia (estará você mais velho) apontará o mostrador sorrindo decifrará os números, aprenderá consigo A leitura das horas horas do batizado, dos primeiros passos horas da escola - ida e volta.

O relógio que marca o ritmo da vida pelos ponteiros que funcionam até hoje, sendo que foi inclusive cobiça de colecionadores, por se tratar de uma peça rara. Tem também o sino com suas repicadas anunciando a hora da missa. O alto falante, que sempre após a missa ficava a tocar músicas que alguém mandava para outro alguém por quem estava interessado, ou o namorado apaixonado oferecia para sua amada numa forma de declarar seu amor. Antecedendo a igreja havia a praça, ornamentada com árvores, e debaixo dela bancos de concreto, onde todos podiam se deliciar da sombra fresca nas tardes quentes. Hoje a praça não está mais arborizada e muito menos com os bancos. Mas ainda existe o alto falante, não mais para oferecer músicas, os recados que hoje ele transmite é para a comunidade, avisando sobre uma missa ou uma novena na casa de alguém, etc...